Entrevista publicada no fanzine Elektronik Arx Nº4 Dezembro de 2001 1. Gengivas Negras é certamente um nome de impacto. O que há por trás disso? Theo - Antes de ser um nome, é um sintoma de extrema desidratação e outras deficiências no organismo.Tem a ver com nosso projeto porque também somos um sintoma.Só existimos porque algo vai mal no organismo de produção e direcionamento cultural. Nossas gengivas estão negras... 2. Quem são? E quem faz o que no Gengivas Negras? Carlos Morevi - Somos em dois integrantes, eu e o Theo. Em estúdio, a função de um é destruir o que outro compoe, e vice-versa. Em apresentações ao vivo já existe uma ordem dentro do caos, eu fico com os sintetizadores, sampler e efeitos e o Theo cuida da bateria eletrônica e mais efeitos. Também contamos com participações especiais a cada show, dependendo da proposta do local e do evento. Músicos, atores de teatro, grafiteiros, tentamos tornar o show o mais rico possível visualmente. 3. Não há como escapar desta pergunta : Quais são sua influências músicais? Theo - Basicamente industrial, Kraftwerk, Neubauten, Ministry... esse é o triunvirato que norteou minhas futuras escolhas,até chegar ao Merzbow, por exemplo, ou os projetos de Mike Patton.Mas não é só porradaria,eu adoro Louis Armstrong,Leonard Cohen ou Beethoven... Carlos - Eu também posso citar o dito triunvirato como determinante em minha formação pseudo-musical. Além de ainda ouvir essas bandas, também ando escutando muita coisa dessa onda power noise, além de bandas como Somatic Responses, Steroid Maximus (puta banda, me lembra as maluquices do Uwe Schmitt!), Hypnoskull, Ryoji Ikeda, Sonar, Boredoms, Fantômas e Synapscape. 4. E há algo fora da música que o influência e inspira em especial? Carlos Morevi - Sim, creio que nossas principais influências não estão vinculadas à música em geral. Nossa gênese foi baseada em tópicos propostos no manifesto futurista, associados a insatisfações generalizadas pelo fim de faculdade. Então o princípio de nossa música vem mesmo de elementos oriundos de fontes distintas como tv, internet e a banalização constante no cotidiano de uma cidade como Curitiba. Theo - Fotos antigas, o quotidiano, TV ruim, rádio ruim, sexo, cinema, o fato de que trabalho 14h por dia,HQ. Carlos Morevi - Não tem como negar a importância do atentado ao World Trade Center como um fator cultural determinante. Esse evento se tornou uma referência brutal aos conceitos mais viscerais da nossa música. São eventos como esse, fatos tão diversos como a violência crescente na região mais próspera da cidade de Curitiba,... como no episódio do chinês que enlouqueceu e tentou matar pedestres com uma machadinha,... são pérolas diárias que resultam em produção sônica desenfreada... O Theo é bombardeado diariamente com esses petardos, pois trabalha na redação de um jornal. 5. Como são os shows do projeto? [em relação ao público, ambiente, casa, problemas, adrenalina, etc ...] Theo - Sempre dá algo errado.Sempre. O público meio que se assusta... as máscaras, o som... os que aplaudem acho que aplaudem de medo. Não fico nervoso...as máscaras nos tornam invulneráveis... não somos mais nós mesmos, entende? Não nos pertencemos mais... temos as gengivas negras... negras... o som é tão acolhedor para mim... como uma vulva morna, um retorno a algo familiar... o que está em volta desaparece, eu enxergo como que através de lentes olho-de-peixe... o que para os outros é um ruído insuportável, pra mim é meu silêncio, é quando estou em paz, como o único sobrevivente... Carlos Morevi - É interessante essa questão da máscara em nossos shows/performances. Ela é um elemento de distorção, ela pode ser associada ao mesmo efeito nocivo dos diversos pedais que utilizamos em nossa música. Ela sufoca, ela limita nosso campo de visão somente ao equipamento diante de nós, como numa extensão de cabos. Ela interfere em nossa percepção, distorce nossa visão do mundo naquele curto espaço de tempo. Nos tornamos, temporariamente, subjugados pelas máscaras. 6. Quais são os equipamentos que você utiliza em shows e para compor as músicas? [pode parecer estranha esta pergunta, mas tem projeto que compõe com alguns equipamentos/elementos que ao vivo são inviáveis]. Carlos Morevi - Atualmente estamos utilizando um sampler, sintetizadores, uma bateria eletrônica (já usamos três simultâneas...), diversos pedais de distorção. Também estou utilizando um instrumento de percussão que eu construí com cordas de piano e captadores, além de geradores de áudio caseiros. Como elemento catalizador de toda essa parafernália, utilizamos o computador em estúdio. 7. Como você definiria o som do Genvivas Negras dentro das muitas vertentes da música eletronica? Theo - Tem a eletrônica, ok? Na eletrônica tem o techno, às vezes mal-humorado, mas sempre relativamente bem comportado, reconhecível... Daí tem o industrial, marcial, magnificamente sujo, mas que ainda pode ser medido em certos parâmetros, é o primo feio e sociopata da família... Então você tem o monstro embaixo da cama desse primo doente, um monstro disforme e não domesticável...é o que convencionou-se chamar simplesmente de noise...é mais extremo, mais fora de controle. Carlos Morevi - Os Gengivas Negras são uma fusão de elementos do power noise com o mais demente noise japonês. Também jogamos nessa panelas altas doses de industrial da "velha escola" com pitadas de (argh, definição nojenta!) IDM! 8. Na sua opnião qual a melhor "faixa" que você compôs para o projeto ? Contrator 9. Eu ouvi "Moscas Nos Grandes Lábios " e "Contrator " ... ruído, ruído e ruído agressivo. Posso citar, também, projetos como Alter Breitenbach e Caos Sonoro, aliás, o próprio Alter diz que Noise tem que ser ingerido como sopa, comido pelas beiradas. O problema é que muita gente como só de garfo. Esta resistência incomoda ? Theo - Interessante metáfora culinária.De fato, noise não é de fácil digestão.O que será que mais agrada ao noiser, se o que ele produz é bem recebido ou se causa repulsa? A repulsa não é sua vitória, o verdadeiro reconhecimento? É um questionamento do próprio status do conceito de "reconhecimento". Apesar de tomada pelas beiradas, a sopa pode ser tomada em colheres cheias. 10. O Gengivas Negras tem um visual bastante diferente no palco para suas performances. De que forma você acha que este impacto visual é importante para o trabalho do Genvivas Negras ? Carlos Morevi - Esse foi um elemento bastante discutido no início da banda. Optamos por uma linguagem visual diante da dificuldade em expor objetivos sonoros tão desconhecidos na época. O noise era um gênero praticamente desconhecido da maioria, e um show onde só predominasse ruído poderia se tornar monótono. O visual acabou surgindo como forma de suprir aquela suposta deficiência em palco. Com as máscaras, associadas às roupas sociais, acabamos idealizando a nossa visão de um cidadão sociopata, distorcido pelo bombardeio de música de má qualidade. 11. O visual , a performance [ infelizmente, vista por fotos no site ] e, até mesmo, o próprio site, mostram uma preocupação estética muito peculiar do projeto. Como essas idéias foram surgindo e se construindo a imagem do Gengivas Negras ? Carlos Morevi - Nossa meta é investir, tanto visualmente como musicalmente nos Gengivas Negras. Esse equilíbrio de mídias é nossa oportunidade de manifestar nesse projeto o que sabemos de comunicação visual, web design, fotografia e quadrinhos. É uma forma de juntar música com um apelo visual forte, denso. Penso que essa seja uma das idéia básicas na antiga música industrial, elementos cênicos como os presentes nos shows históricos do Throbbing Gristle, Skinny Puppy e SPK. 12. Vocês se preocupam em passar alguma mensagem atraves da música ? Theo - Música?... heh... a "música" já é a mensagem... não é necessário matar o mensageiro, pois ele é suicida... heheh... 13. Poderia falar um pouco sobre seus outros projetos paralelos ? Theo - Eu e o Carlos somos também o Terrortronic, que é um projeto gabbanoise, é tekkno hardcore com death...também é barulhento, mas é mais domesticado, dançável até. Eu faço parte do Mecanotremata, que é uma banda industrial, tem vocal, percussão com ferro-velho. Com Brasil Holsbach, do Mecanotremata, tenho o Tokkotai, é techno mesmo, bem acessível e divertido. Sozinho eu tenho um projeto chamado Shishogan, é com batidas leeeeentas, mais illbient, um pouco de dub e trip-hop sombrio, uma coisa ou outra vira drum'n'bass...rótulos, rótulos... Carlos Morevi - Além dos Gengivas Negras e Terrortronic, também tenho o Fetalcohol, um power noise mais denso, climático. 14. O fato de vocês serem formados em Belas Artes, trabalhar com design e fotografia, obviamente é refletido nos seus projetos musicais. Vocês acham que isso é importante para trazer mais adeptos de Noise/Industrial/Eletronico ? Carlos Morevi - Bom, são fatores que me ajudam na hora da programação visual da banda, site e etc. Tentamos fugir dos clichês da música industrial nos Gengivas Negras. É algo mais doentio, de cunho social mais distorcido. Nossa musa encontra-se nas primeiras páginas de jornais sensacionalistas! Construímos patterns assim como legistas tentam recolher restos humanos nos trilhos ferroviários. Theo - Eu também fiz Belas Artes, mas o lance de exercer a fotografia é mais com o Carlos. Eu trabalho como ilustrador. Certamente essa formação tem influência sobre o que produzimos, mesmo que seja como geradora de muitos de nossos ódios...mas é importante também para a formação de uma consciência conceitual mais sólida. Quero dizer que podemos fazer aquele esporro todo, mas esperamos que as pessoas percebam que isso não é absolutamente gratuito...essa massa abstrata tem um embasamento, um método...até psicopatas têm um método, e é justamente isso que os diferencia dos assassinos comuns. 15. Como é a cena alternativa de Curitiba ? Theo - É... bem... é alternativa... tem pequenos grupos... períodos em que nada acontece... algo que vai e volta, o público é muito volúvel...Curitiba é volúvel. 17. No Brasil, dificuldades como : gravadoras que não abrem espaço para o estilo , poucos selos independentes, etc, etc ... levam muitos projetos a divulgar sozinhos seu próprio trabalho. Meio que marginalizados e no no meio de uma explosão de cdr's, mp3 e internet, o que acaba ajudando e muito na divuldação. Analisando isso tudo, qual é sua visão do futuro ? Carlos Morevi - Esse é um problema que se aplica a diversos gêneros de música alternativa no Brasil. Posso dizer que a situação agora é bem diferente de cinco anos atrás. Com a internet fica praticamente bem mais fácil impregnar o conceito de cada tipo de música, por mais obscura que ela possa ser. A cinco anos você dependia muito de comentários infelizes na imprensa e até mesmo em fanzines para se descobrir novas tendências na eletrônica. Eram rótulos equivocados, aplicados sem pudor a torto e direito. Creio que muitas iniciativas válidas acabaram sufocando nessa onda. Agora é tudo diferente. A velocidade que temos a nosso dispor para ouvir novas idéias dentro da música eletrônica está renovando nossos antigos preconceitos. Com a ajuda da web e do mp3, a indústria da música eletrônica tem se revelado o terreno mais fertil, o que prova que ainda vamos ficar impressionados com esse estilo durante muito tempo. Theo - Não adianta ficar choramingando."ELES" não querem o que produzimos, nunca vão nos chamar pra festa.Foda-se as gravadoras.A questão é tornar o NOSSO meio forte.Estamos do lado de fora e na chuva, OK, então esse é nosso habitat.NÓS escolhemos o lado de fora, então é aqui que seremos fortes. 18. Apenas suponha que você vai fazer um filme sobre sua vida, qual seria as músicas e respectivas bandas que fariam parte do Soundtrack ? Theo - Computer Love - Kraftwerk, Jesus Built My Hotrod - Ministry, Hell - Squirrel Nut Zippers, Stop - Erasure, The Sunny Side of the Street - Louis Armstrong, The Land of Rape and Honey - Ministry, Enjoy the Silence - Depeche Mode, Merzbow, Da Ya Think I'm Sexy - Revolting Cocks, Murderous - Nitzer Ebb, Nona Sinfonia - Beethoven, Chocolate Jesus - Tom Waits, Der Kuss - Einstuerzende Neubauten. Carlos Morevi - C8 Diversity - Venetian Snares, Jesus Built My Hotrod - Ministry, Tin Omen - Skinny Puppy, Control de Vigilantes - Esplendor Geométrico, Daydreams of a Serial Killer - Morgue, Main Frame - Sonar, Uberleben Ich Nicht - C17H19NO3, Papa Papa Beta Kolm - Dead Voices On Air e qualquer música das bandas Treponem Pal, Godflesh, Residents, Napalm Death e Swans. Ah sim, eu odeio The Cure e qualquer lixo produzido sob influência de Marilyn Manson. 19. Quais são os próximos planos do Gengivas Negras ? Carlos Morevi - Estamos trabalhando em um desenho animado dos Gengivas, a ser veinculado em nosso site em 2002. Além dessa animação, temos alguns projetos de intervenções em espaços publicos, associados ao conceito de performance dos Gengivas. 20. Alguma possibilidade de shows em São Paulo para 2002? Aguardamos convites :-) 21. Você gostaria de adicionar mais alguma coisa nesta entrevista, dizer algo para os apreciadores do estilo, etc .. Nós é que agradecemos. Isso que fazemos, todos nós, fanzines, bandas obscuras, quem vai a esses shows, quem está lendo isso, todos que vão um pouco além do que lhes é oferecido, todo mundo que faz parte disso é importante. Isso tudo forma um espectro saudável, um respiro para essa saturação pasteurizada que nos oferecem. É a luta diária pelo que gostamos, pelo que temos necessidade de transmitir e absorver...é como um organismo, certo? Sobrevivendo, ainda que com as gengivas negras... Obrigado